A escleroterapia com espuma de polidocanol revolucionou o tratamento de varizes, oferecendo uma alternativa não cirúrgica para casos complexos que, antigamente, exigiam internação hospitalar. No entanto, a popularização da técnica trouxe consigo dúvidas críticas sobre segurança e eficácia. Afinal, injetar uma substância química na corrente sanguínea é seguro?
Este guia técnico analisa profundamente a anatomia do procedimento, separando os consensos científicos dos mitos de consultório.
Isenção de Responsabilidade (Disclaimer YMYL): Este artigo tem caráter estritamente educativo e baseia-se em diretrizes da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) e literatura médica internacional. Ele não substitui o diagnóstico ou a consulta presencial com um cirurgião vascular. Nunca inicie tratamentos sem supervisão médica.
O que é a escleroterapia com espuma de Polidocanol?
A escleroterapia com espuma é um procedimento minimamente invasivo destinado à eliminação de veias doentes, desde vasinhos estéticos até grandes troncos venosos como as veias safenas. O agente principal é o polidocanol, um álcool de cadeia longa com propriedades detergentes e anestésicas locais.
A espuma de polidocanol é uma mistura física entre o medicamento líquido e um gás (geralmente ar ambiente ou CO2), criada para preencher o vaso sanguíneo, deslocar o sangue e causar uma lesão controlada na parede interna da veia, levando à sua fibrose e absorção pelo organismo.
Mecanismo de ação: a química por trás da "Secagem"
Diferente do laser, que usa calor (energia térmica), a espuma age por destruição química do endotélio (a camada que reveste a veia por dentro). O processo ocorre em três fases:
- Deslocamento do Sangue: A consistência de "mousse" da espuma empurra o sangue, permitindo que o medicamento toque a parede da veia sem ser diluído imediatamente.
- Vasoespasmo e Destruição Endotelial: O polidocanol destrói as células do endotélio, expondo o colágeno subendotelial. Isso gera um espasmo imediato (a veia "murcha").
- Fibrose e Esclerose: Ocorre uma reação inflamatória controlada que transforma a veia em um cordão fibroso inativo, que será reabsorvido pelo corpo ao longo de meses.
O Método Tessari: A Arte da Mistura
A eficácia do polidocanol depende da sua densidade. A técnica mais utilizada mundialmente é o Método Tessari. Utilizam-se duas seringas conectadas por uma torneira de três vias (three-way). O médico mistura 1 parte de polidocanol líquido para 4 partes de ar (proporção 1:4 ou 1:5), realizando movimentos rápidos de bombeamento. O resultado é uma microespuma densa, estável e homogênea.

Principais Benefícios do Tratamento com Espuma
Por que a espuma ganhou tanto espaço frente à cirurgia convencional (stripping)?
1. Ausência de Cortes e Internação
O procedimento é 100% ambulatorial. Não há necessidade de raquianestesia, intubação ou cortes de bisturi. O paciente entra caminhando e sai caminhando.
2. Ideal para Pacientes com Risco Cirúrgico
Idosos, obesos, pacientes anticoagulados ou com comorbidades cardíacas que não podem ser submetidos a cirurgias longas encontram na espuma uma solução viável e segura.
3. Custo-Benefício
Comparado ao Laser Endovenoso e à Radiofrequência, o custo do material para a espuma é significativamente menor, tornando o tratamento mais acessível sem perder a funcionalidade.
4. Tratamento de Úlceras Venosas
Este é o "padrão-ouro" funcional da espuma. Em pacientes com feridas abertas causadas por varizes (úlceras venosas), a espuma pode ser injetada guiada por ultrassom diretamente na veia nutridora da úlcera, acelerando a cicatrização de forma drástica, muitas vezes onde curativos falharam por anos.
Riscos e efeitos colaterais detalhados
Apesar de segura, a escleroterapia com espuma não é isenta de riscos. A transparência sobre as complicações é o que diferencia um profissional ético.
Hiperpigmentação (Manchas Escuras)
É a complicação mais frequente, ocorrendo em 10% a 30% dos pacientes. A mancha acastanhada ocorre devido ao depósito de hemossiderina (ferro do sangue) na pele após a inflamação da veia. Embora a maioria desapareça entre 6 a 12 meses, algumas podem ser permanentes. A técnica de "drenagem de coágulos" (punção da veia tratada após alguns dias) reduz drasticamente esse risco.
Trombose Venosa Profunda (TVP)
Existe um risco baixo (menor que 1% em mãos experientes) de a espuma migrar para o sistema venoso profundo e causar uma trombose. O uso de ultrassom durante a aplicação e a mobilização imediata (caminhar logo após a sessão) são protocolos obrigatórios para mitigar esse risco.
Distúrbios Visuais e Enxaqueca (Escotomas)
Pacientes podem relatar alterações visuais temporárias (pontos brilhantes, visão turva) minutos após a injeção. Isso ocorre geralmente em pessoas que possuem Forame Oval Patente (FOP) no coração, permitindo que microbolhas de gás passem para a circulação arterial e cheguem ao córtex visual. É um efeito transitório, assustador, mas que geralmente se resolve espontaneamente em 30 minutos sem sequelas.
Matting (Nuvem de Vasinhos)
É o surgimento de uma rede de microvasos vermelhos muito finos ao redor da área tratada. É uma reação do corpo à obstrução abrupta do fluxo. Pode ser tratado com laser transdérmico posteriormente.
Úlceras e necrose cutânea
Evento raríssimo, decorrente geralmente de erro técnico (injeção extravascular ou injeção acidental em uma artéria). A injeção intra-arterial é uma emergência médica grave.
Comparativo: Espuma vs. Cirurgia vs. Laser
| Critério | Espuma de Polidocanol | Cirurgia Convencional (Stripping) | Laser Endovenoso / Radiofrequência |
|---|---|---|---|
| Invasividade | Baixa (Punção com agulha) | Alta (Cortes e extração da veia) | Média (Cateterismo e punção) |
| Taxa de Oclusão Inicial (Safenas) | ~70-80% (pode exigir sessões) | 95-100% | 95-99% |
| Risco de Manchas | Médio/Alto | Baixo | Baixo |
| Repouso Necessário | Nenhum (Imediato) | 7 a 15 dias | 2 a 3 dias |
| Anestesia | Nenhuma ou Local | Raqui ou Geral | Local com Sedação |

Para Quem é Indicado?
A indicação depende da classificação CEAP (Classificação Clínica, Etiológica, Anatômica e Patofisiológica) do paciente.
- Varizes de Grosso Calibre (Tronculares): Veias que fazem relevo na pele.
- Insuficiência de Veias Safenas (Magna e Parva): A espuma é excelente para fechar safenas insuficientes sem arrancá-las.
- Recidivas Pós-Cirúrgicas: Pacientes que já operaram e as varizes voltaram. A anatomia alterada pela cirurgia anterior torna a reoperação perigosa, mas a espuma navega facilmente por essas veias tortuosas.
- Úlceras Venosas Ativas (CEAP C6): A indicação mais nobre da técnica.
Contraindicações: Quem NÃO Pode Fazer
A segurança do paciente depende do respeito a estas diretrizes. As contraindicações dividem-se em absolutas (proibido) e relativas (avaliação risco x benefício).
| Tipo | Condição | Motivo |
|---|---|---|
| Absoluta | Alergia conhecida ao Polidocanol | Risco de choque anafilático. |
| Absoluta | Trombose Venosa Profunda (TVP) Aguda | Risco de embolia pulmonar. |
| Absoluta | Infecção sistêmica ou local grave | Risco de septicemia. |
| Absoluta | Forame Oval Patente (FOP) Sintomático | Risco de embolia paradoxal (AVC/AIT). |
| Relativa | Gestação e Amamentação | Segurança não estabelecida para o feto/bebê. |
| Relativa | Histórico de Enxaqueca com Aura | Pode desencadear crises fortes. |
O Passo a Passo do Procedimento
1. Mapeamento com Ultrassom Doppler
Antes de qualquer agulhada, o médico deve mapear a perna. É impossível fazer espuma com segurança em grandes veias sem Eco-Doppler. O médico identifica a origem do refluxo, o diâmetro da veia e a proximidade com veias profundas.
2. A Punção e Injeção
Com o paciente deitado, a veia é puncionada. A perna pode ser elevada para esvaziar o sangue. A espuma é injetada lentamente sob visualização direta no ultrassom. O paciente pode sentir um leve ardor ou "peso" no local, mas raramente dor intensa.
3. Compressão e Mobilização
Imediatamente após a injeção, coloca-se uma meia elástica de média ou alta compressão ou enfaixamento. O paciente é instruído a realizar movimentos de dorsiflexão do pé (bombear a panturrilha) ainda na maca.
Erros Comuns e Mitos
- Erro: Achar que é "só uma injeçãozinha". É um procedimento médico complexo que altera a hemodinâmica do membro. Deve ser feito por cirurgião vascular ou angiologista.
- Mito: "A espuma substitui a cirurgia em 100% dos casos". Não. Em varizes muito calibrosas e superficiais, a cirurgia pode ter um resultado estético superior (menos manchas).
- Erro: Não usar meia elástica. A compressão pós-procedimento é vital para colabar a veia e garantir que ela "cole" (fibrose) e não apenas coagule.
Glossário de Termos Vasculares
- Esclerose
- Endurecimento patológico ou induzido de um tecido. No caso das varizes, é o objetivo do tratamento (transformar a veia em um cordão duro e inútil).
- Veia Safena
- A principal veia superficial da perna. Corre da virilha ao tornozelo. Frequentemente é a causa das varizes visíveis.
- Tromboflebite
- Inflamação da veia causada por um coágulo. Na espuma, induzimos uma tromboflebite química controlada.
- Eco-guiada
- Procedimento realizado sob a visão de um aparelho de ecografia (ultrassom).
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quanto tempo dura o efeito da espuma?
A veia tratada com sucesso é eliminada definitivamente. No entanto, como a insuficiência venosa é uma doença crônica e genética, outras veias podem adoecer com o tempo. A taxa de recorrência em 5 anos é ligeiramente maior na espuma do que na cirurgia, exigindo manutenção.
A aplicação de espuma dói?
A dor é mínima e bem tolerada. Sente-se a picada da agulha e, ocasionalmente, uma ardência passageira durante a entrada do produto. Não se compara à dor pós-operatória de uma cirurgia convencional.
Posso trabalhar no dia seguinte?
Sim, vida normal imediata. A principal vantagem da espuma é não exigir afastamento do trabalho. A única restrição costuma ser a exposição solar direta enquanto houver hematomas ou inflamação.
O que acontece com o sangue que passava pela veia eliminada?
O organismo redireciona o fluxo para veias saudáveis. As varizes são veias doentes que já não transportavam o sangue corretamente (havia refluxo). Eliminá-las melhora a circulação geral, não o contrário.
Qual o preço médio da sessão?
Os valores variam conforme a complexidade e região, mas geralmente custam entre R$ 400 a R$ 1.200 por sessão. Um tratamento completo pode exigir de 1 a 5 sessões. É proibido pelo CFM divulgar preços exatos sem consulta.
Conclusão
A espuma de polidocanol representa um marco na flebologia moderna, democratizando o acesso ao tratamento de varizes graves e oferecendo uma solução robusta para quem foge do bisturi. Embora tenha taxas de eficácia ligeiramente inferiores à cirurgia em termos de recidiva a longo prazo e um risco maior de manchas estéticas, sua segurança, baixo custo e a eliminação da necessidade de repouso a tornam a escolha ideal para milhares de pacientes.
A chave para o sucesso não está apenas na espuma, mas na mão de quem a aplica. Um diagnóstico preciso com Doppler e a técnica correta de Tessari são divisores de águas entre um resultado excelente e uma complicação.






